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Capitalismo em crise?
Bancos falindo, bolsas em queda livre, juros subindo e commodities se desvalorizando... Será que o capitalismo está em crise? Evidentemente que não. O que está havendo é "uma crise no capitalismo". Óbvio que o sistema em si foi abalado, mais este é um modo de produção que possui, entre outras, a qualidade de se recompor; de se refazer - nem que para isso tenha que incorporar novos conceitos e novas diretrizes. Assim foi muitas vezes e assim serão outras tantas. "Remember the crash" de 1929. O que a economia mundial vivencia hoje é uma violenta ruptura de equilíbrio entre oferta e procura de fatores de produção e bens e serviços, provocada unicamente pela falta da prática reguladora e fiscalizadora do mundo financeiro norte-americano, principalmente durante o "reinado" de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve. Desde que assumiu a presidência do banco central dos Estados Unidos, em agosto de 1987, até quando deixou o cargo, em janeiro de 2006 (portanto, durante quase 20 anos), ele deixou que crescesse a bolha financeira, principalmente um dos seus componentes, a bolha hipotecária, sem fazer uso de nenhum dos inúmeros instrumentos de que dispunha para conte-la. Sua filosofia sempre foi contrária à regulamentação da economia. Era uma situação anômala: o ocupante do principal cargo encarregado pela regulamentação e fiscalização da economia era alguém que não acreditava em regulamentação. O resultado não poderia ser mais catastrófico. Sem fiscalização, empresas financeiras americanas passaram a também não fiscalizar seus clientes, concedendo créditos a juros relativamente baixos a empresas e pessoas que já estavam super endividadas e que, portanto, não tinham condições e liquidar seus débitos. O caso mais típico e citado foram os financiamentos para aquisição de imóveis, inclusive às famílias de baixa renda - os clientes de segunda linha, menos confiáveis, os chamados subprime. No vencimento, ou mesmo antes, os empréstimos eram renegociados e os prazos alongados. Como esse segmento do mercado estava aquecido, era comum os imóveis financiados sofrerem valorização. A conseqüência era que, vez por outra, os devedores alongarem o prazo e, ainda, levarem para casa algum dinheiro. Era uma verdadeira corrente da felicidade. Quando o mercado desse tipo de imóvel ficou saturado (oferta maior que a demanda), começaram as primeiras inadimplências. Muitos devedores deixaram de pagar as prestações e - com a essa altura os imóveis estavam tremendamente desvalorizados, a ponto de seu valor ser inferior ao saldo da dívida - simplesmente abandonaram as suas casas. Aí se criou uma bola de neve: sem vendas, o setor imobiliário deixou de construir e jogou muita gente no desemprego; sem receber, os bancos deixaram de emprestar; muita gente desempregada causou a redução do consumo; sem vender, o comércio deixou de fazer compras às indústrias; sem produzir e sem vender, indústria e comércio botam mais gente nas filas do desemprego. Criou-se uma bola de neve. O resultado todo mundo já sabe: os bancos IndyMac, Fifth Third Bancorp, National City, Wachovia Corp e outros bancos regionais estão devagar, quase caindo. As agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac foram temporariamente estatizardas. O Bear Stearns foi vendido ao J.P. Morgan. O Merril Lynch vai ser vendido ao Bank of América e o Lehman Brothers, depois de 158 anos vai fechar portas. Para completar a AIG-American International Group, a maior seguradora americana (e talvez do mundo) também teve que ser socorrida pelo tesouro do Tio Sam. Dos Estados Unidos a crise migrou para o mundo. As bolsas de européias, asiáticas e a Bovespa acompanham as quedas diárias da Bolsa de Nova York e da Nasdaq. Embora séria - bota séria nisso -, a atual crise financeira não representa o fim do capitalismo, por dois motivos. Primeiro, porque não há nada de sério para substituí-lo e, segundo, porque já há um grande e importante movimento para evitar que a turbulência atinja um grau sistêmico. Na semana passada, além do governo americano estender um tapete de quase um trilhão de dólares, os seis principais bancos centrais do mundo anunciaram uma ação conjunta, numa tentativa de controlar o caminho da crise que já afeta a economia global. Fazem parte desse esforço o BoJ (o Banco Central do Japão), o Federal Reserve (dos EUA), o BCE (Banco Central da União Européia), o BoE (da Inglaterra), o SNB (da Suíça) e o Banco do Canadá. Essa ação representará uma injeção de mais meio trilhão de dólares no sistema financeiro desses países, a juros baixíssimos. Portanto, o capitalismo continua vivíssimo. O liberalismo clássico tem horror ao intervencionismo estatal na economia, como agente produtor ou protetor. Entretanto, é de sua doutrina que o governo deve atuar instaurando regras de comportamento econômico e fazendo com que elas sejam cumpridas. O papel do governo é o de agente regulador e fiscalizador, intermediando os interesses dos outros agentes econômicos: os produtores e os consumidores.
Tomislav R. Femenick — Fonte: O Globo
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